quinta-feira, 17 de maio de 2012

A CRÕNICA DO DIA - 17/05/12



O CENTENÁRIO DO “EU”


               O poeta Augusto dos Anjos, com um único livro, editado no mês de maio de 1912, há cem anos atrás, revolucionou, sem dúvida, a maneira de fazer poesia, colocando, nos seus poemas, não apenas a perfeição da métrica e a beleza da linguagem, mas todos os mistérios e desencantos que envolvem a vida, narrados, a seu modo, em cada um dos sonetos e nas outras poesias que de tudo falam, emudecendo, às vezes, pela força do que está expresso, o nosso próprio coração.
              A publicação do livro “EU e outras poesias”, no Rio de Janeiro, há cem anos atrás, não foi um acontecimento editorial dos mais marcantes, mas foi, sem sombra de dúvidas, para a literatura nacional, um fato verdadeiramente decisivo para que, em se tratando de livros poéticos, tudo passasse a ser visto de outra maneira, a partir daque-la publicação.
              Saudamos, portanto, com o maior entusiasmo, a iniciativa da Fundação Casa de José Américo que, ao festejar os 30 anos de sua fundação, incluiu, como centro do foco de suas atividades comemorativas, o centenário do “EU”, programando, para hoje, a partir das 14 horas, várias palestras e um sarau poético que reunirá vários artistas, co-mo Oliveira de Panelas, Criselide Barros, Chico Viola, Saulo Mendonça, Gil Holanda, Belo de Souza e Bené Siqueira.
              A partir de amanhã, a exposição Um varal poético sobre Augusto dos Anjos estará presente na Casa de José Americo, mostrando 12 painéis com poemas de diversos autores, como Ronaldo Cunha Lima, Eulajose Dias de Araújo, Sérgio de Castro Pinto, Saulo Mendonça, Mauro Mota, Manoel Monteiro, Neide Medeiros Santos, Firmino Ayres Leite e Zilma Ferreira, homenageando Augusto, além de três poesias do própriopoeta, ilustradas pelo artista plástico Flávio Tavares.
              Estarão também em exposição livros, revistas e cordéis de diversos autores, todos mostrando a obra do nosso poeta maior, estando em destaque, no entanto, uma relíquia - um exemplar da primeira edição do EU -, além de um estudo crítico de Ferrei-raGullar sobre o autor e uma revista comemorativa dos 100 anos de nascimento de Augusto dos Anjos.
              Vamos todos à Fundação Casa José Américo, logo ali, na orla do Cabo Branco, nº 3336, para que possamos sentir de perto, mais uma vez, toda a força e beleza dos versos de Augusto.
              A sua sombra, realmente, jamais deixará de estar aqui.

              http://www.youtube.com/watch?v=L3132wrQaRY                                                             

terça-feira, 15 de maio de 2012

CRÔNICA DA SAUDADE - maio 2012



UM SAMBA DIFERENTE

           
                 No ano de 1999, ao chegar ao Rio de Janeiro, fui informado por amigos, que sabiam da minha admiração por Ataulfo Alves, dos show que estavam sendo realizados no Centro Cultural Banco do Brasil, comemorando os 90 anos de nascimento de um dos maiores sambistas da nossa terra. Á época, foram realizados quatro shows, dos quais só assisti ao último deles – Na Cadência do Samba -, que contou com as presenças de Elza Soares e Roberto Silva, que deram conta do recado e receberam os aplausos entusiasmados da platéia.

             Foi com esse título – Na Cadência do Samba – que mantive vários programas no ar, nas diversas emissoras de rádio por onde andei, sempre homenageando a música de Ataulfo... os seus sucessos... aqueles sambas com um gingado diferente que só ele sabia fazer... e que ficaram para sempre na história da nossa música popular.

             Nascido na Fazenda Cachoeira, no município de Mirai, na Zona da Mata de Minas Gerais, no dia 2 de maio de 1909, Ataulfo Alves de Sousa era filho de Severino de Sousa e Matilde de Jesús, sendo que o pai – que tinha o apelido de Capitão sem nunca ter sido militar – era um repentista, tocador de viola e de sanfona, bastante conhecido em toda a região. Aos oito anos, Ataulfo já gostava de improvisar com o pai, até que o perdeu para sempre, dois anos depois. Para ajudar a mãe no sustento da casa e dos seus seis irmãos, o menino Ataulfo foi leiteiro, condutor de bois, carregador de malas, menino de recados, entregador de marmitas, engraxate e tudo o que aparecesse pela frente. Em 1937, apenas com 18 anos, transferiu-se para o Rio, acompanhando um médico, amigo da família, passando a morar em Rio Comprido, onde passou a freqüentar rodas de samba. Quando trabalhava, como prático de farmácia, na Drogaria do Povo, teve tempo pra organizar um grupo musical, onde tocava violão, cavaquinho ou bandolim. Foi quando Maria do Carmo, amiga das filhas do seu patrão, que vivia dizendo que um dia seria uma grande artista. Ataulfo achava graça com aquela história. Só que, mais tarde, aquela Maria seria conhecida internacionalmente com o nome de Carmen Miranda. Mais tarde, os dois voltariam a se encontrar na RCA Victor e Carmen gravou, de Ataulfo, Tempo Perdido. Em 1935, gravou seu primeiro sucesso: Saudades do Meu Barracão, com Floriano Belham, vindo, em seguida, Menina que Pinta o Sete, com o Bando da Lua. Em 1937, Carlos Galhardo gravou, pela Odeon, a valsa A Você, assim como o samba-canção Quanta Tristeza, uma consagração.  Nos anos 40 e 50, Ataulfo foi um dos mais talentosos compositores, criando jóias como Leva Meu Samba, Ai, que Saudades da Amélia, Atire a Primeira Pedra, Nunca Mais, Infidelidade, Vida da Minha Vida, Errei Sim, Pois É, Atire a Primeira Pedra, Leva meu Samba, Meus Tempos de Criança, Vai, Vai Mesmo, Na Cadência do Samba, Laranja Madura e muitas outras composições que ninguém esquece.

               Ao falecer, no dia 20 de abril de 1969, há 43 anos, no Rio de Janeiro que tanto amava, vítima de uma úlcera no duodeno que o acompanhou por quase 20 anos, Ataulfo Alves, o menino de Mirai, deixou a música brasileira mais pobre e o nosso principal ritmo perdeu um pouco daquele balanço que só mesmo ele sabia como colocar.

                 Foi a partir dai que o nosso samba tomou conta do céu.

                  http://www.youtube.com/watch?v=LAOFlACg8Vk                                                            

sábado, 5 de maio de 2012

CRÔNICA DA SAUDADE - maio-2012



                            ETERNA RAINHA

 
           Foi nos anos 50 que a Era do Rádio passou a existir, realmente, em nosso país, com as maiores emissoras radiofônicas brasileiras ditando, em todos os segmentos da nossa sociedade, as regras da comunicação, dos modismos, de tudo aquilo que, enfim, virava sucesso junto ao grande público, em todo o Brasil.

           Emissoras como a Rádio Nacional e a Rádio Mayrink Veiga, ambas do Rio de Janeiro, ditavam normas, criavam concursos e transformavam em verdadeiros ídolos populares, da noite para o dia, artistas que se apresentavam nos seus programas de auditório, elegendo-os, através de votações populares que se realizavam todos osanos, os novos reis e as novas rainhas do rádio, que passavam a ser reverenciados, por seus súditos, em todo o território nacional..

           Foi Ângela Maria, uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, quem mais ocupou o trono como Rainha do Rádio, nessas eleições populares, tendo sido eleita pelo povo em quatro mandatos consecutivos, nos anos de 1952 a 1955, causando verdadeira euforia em toda a sua imensa legião de fãs de todo o Brasil.

           E qual o motivo desta lembrança de Ângela quando buscamos um tema para a crônica de hoje ? O principal motivo, sem dúvida, é que, no dia 13 deste mês de maio, os seus milhares de fãs comemorarão, além do dia da libertação dos escravos, a passagem de mais um aniversário da nossa sempre jovem Ângela Maria.

            Abelim Maria da Cunha – este é o seu verdadeiro nome - nasceu na cidade de Macaé, no estado do Rio de Janeiro, no dia 13 de maio de 1928, revelando, desde menina, sua vocação para a música, através do coro da igreja onde cantava, até os 20 anos, já que sua família não permitia que seguisse a carreira artística. Passando a morar no Rio com a irmã, a partir de 1948, Ângela, primeiramente, foi trabalhar como crooner no Dancing Avenida, onde foi descoberta e levada para a Rádio Mayrink Veiga. Sua primeira gravação – Não tenho Você – já foi um sucesso de vendas. E vieram, logo após, as músicas que marcaram a sua carreira, como Nem Eu, Orgulho, Lábios de Mel, Vida de Bailarina, Abandono, Babalu, Fósforo Queimado, Garota Solitária e muitas outras igualmente inesquecíveis. Gravou mais de 50 LPs, diversos compactos e dezenas de discos em 78 rotações

           O que mais nos impressiona, hoje, no entanto, é a jovialidade da voz desta senhora cantora, que está completando 84 anos de idade, e continua vivendo a vida como sempre viveu, levando sonhos e canções aos corações das grandes platéias, que ainda a ouvem e não se cansam de aplaudi-la.

           Foi o presidente Getúlio Vargas quem melhora definiu: Ela tem a voz doce e a cor do sapoti. E foi assim, com o apelido de Sapoti, que ela passou a ser conhecida por muitos anos.

           Parabéns, Ângela Maria - a sapoti-, nossa eterna rainha.




                                                                            

segunda-feira, 16 de abril de 2012

CRÔNICA DA SAUDADE - 18/04/2012

                             

UMA VOZ
E UMA SAUDADE


               Há quatorze anos, no dia 18 de abril de 1998, o Brasil perdia muito da sua musicalidade e do seu romantismo com o falecimento de um dos seus mais consagrados cantores de todos os tempos, ídolo de milhões de brasileiros e dono de uma voz inconfundível: Nelson Gonçalves.
   Filho de pais portugueses, que passaram a residir em São Paulo, no
bairro do Braz, logo após o nascimento do primogênito, Antonio Gonçalves Sobral (era este o verdadeiro nome de Nelson Gonçalves), que nasceu em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, no dia 21 de julho de 1919.
   Aos 16 anos, tornou-se lutador de boxe na categoria peso-médio, até
que, dois anos depois, resolveu tentar a sorte como cantor. Num programa de calouros da Rádio Tupi de São Paulo fez a primeira tentativa e foi reprovado. Na segunda, foi contratado. Tentou fixar-se no Rio de Janeiro, mas foi em São Paulo onde recebeu convite para um teste de gravação e foi recomendado a RCA Victor pelos compositores Osvaldo França e Rosano Monello. Foi com a ajuda de Benedito Lacerda que gravou, em 1941, seu primeiro disco, onde o samba Sinto-me Bem, de Ataulfo Alves, fez um relativo sucesso, garantindo ao cantor dois contratos: um, com a gravadora e, outro, com a Rádio Mayrink Veiga, para onde foi levado por Carlos Galhardo. Nesse mesmo ano, ao gravar Renúncia, de Roberto Martins e Mário Rossi, deu início à uma série de sucessos que marcariam a década de 40, como a célebre canção Maria Bethânia, de Capiba, os tangos Carlos Gardel e Hoje Quem Paga Sou eu, de Herivelto Martins e David Nasser.
               Na década de 50, gravou sucessos marcantes de Adelino Moreira, como A Última Seresta e A Volta do Boêmio, além de parcerias com o compositor em Mariposa, Timidez e no bolero Fica Comigo Esta Noite. No final da década, Nelson tornou-se viciado, passando a travar uma dramática batalha contra as drogas, problema que acabaria por ocasionar uma interrupção em sua carreira em 1962, quando foi preso por acusação de tráfico, tendo sido absolvido em julgamento.
          Nessa época, formou-se um mutirão de amigos que se uniram em torno da sobrevivência do cantor... do seu retorno às atividades artísticas... de sua volta aos shows, às gravações e ao sucesso. Por telefone, ele pedia socorro. E foram muitas as vezes em que inventamos temporadas na Rádio Borborema de Campina Grande, onde ele vinha e se apresentava cercado de cuidados, acompanhado da esposa, que o mantinha afastado das drogas. Em 1965, ele já era o mesmo Nelson de sempre. Gago, inteiramente gago ao falar; perfeito, totalmente perfeito, ao cantar.
                Em vida, nenhum cantor popular foi maior do que Nelson: gravou 120 LPs,  20 CDs, vendeu 50 milhões de discos, ganhou 15 discos de platina e 41 de ouro.
                 E ficou para sempre no coração do povo brasileiro. 

                                                                       

segunda-feira, 9 de abril de 2012

CRÔNICA DA SAUDADE - abril 2012

                                                         

O ADEUS DE PAVAROTTI

 

               Existem vozes humanas que marcam uma época, como já aconteceu com inúmeras outras que ficaram para sempre em nossas vidas, a maioria delas presentes na música erudita, que é o caminho natural dos grandes intérpretes de todos os tempos, como é o caso de Luciano Pavarotti, que foi o tenor dominante na segunda metade do século XX.
               Nascido em Módena, na Itália, no dia 12 de outubro de 1935, Luciano continuava continuava cantando como nunca, após mais de sessenta anos de vida, interpretando, melhor que ninguém, as grandes páginas da musica universal, como La Bohéme, de Verdi, Tosca, de Puccini e tantas outras, além das belas e incomparáveis canções napolitanas que só ele conseguia leva-las ao extremo da mais completa fascinação.
            Foi no dia 29 de abril de 1961 que o nosso mais completo tenor se apresentou no Teatro Massimo, de Palermo, num concerto tão memorável que lhe abriu as portas para suas primeiras aparições internacionais, como em Amsterdam, Viena, Zurich e Londres, em 1963. Foi com a ópera La Bohéme, de Verdi, a mesma tantas vezes apresentada no Teatro Scala, de Milão, que Luciano mostrou todo o seu poder de interpretação em San Francisco e Nova York, nos Estados Unidos, conquistando o coração de milhares de admiradores americanos e, a partir daí, em quase todos os países do mundo, inclusive no Brasil.
            Em 1968, veio a consagração, dando vida ao Rodolfo, da ópera La Bohéme, no Metropolitan Ópera House, de Nova York, convertendo-se, a partir daí, no mais conhecido e aplaudido tenor, desde Caruso.
              Juntamente com os amigos José Carreras e Plácido Domingos, outros excelentes tenores, Luciano realizou grandiosos concertos em Roma, no ano de 1991, e em Los Angeles, em 1994 .
              No auge da fama, ele surpreendeu aos seus milhões de admiradores em todo mundo, anunciando, durante sua interpretação da Tosca, no sábado, 27 de março de 2004 , no Metropolitan House, de Nova York, que aquela seria a sua última apresentação em público e que deixaria de cantar definitivamente no dia 12 de outubro de 2005, ao comemorar os seus 70 anos de vida, como realmente aconteceu.
                - De todos os palcos, tinha que ser neste: chegou a hora – disse o tenor,
com uma certa tristeza na voz de tantos sucessos.  
                As milhares de pessoas na platéia ficaram em silêncio por muito tempo, como se a música tivesse deixado de existir.
            Operado de um câncer pacreático em julho de 2006, em Nova York, ele deixou de fazer aparições públicas desde então, isolando-se em sua casa, em Modena, no norte da Itália, onde morreu, aos 71 anos.
            No dia 6 de setembro de 2007, Pavarotti, após muito sofrimento, partiu, enfim, para os campos eternos, deixando, em todos nós, a magia eterna da sua voz;

                                                                                                           

quinta-feira, 29 de março de 2012

A CRÔNICA DO DIA -29/03/2012



LÁGRIMAS DE MARÇO

     
             A julgar pelos últimos e tristes acontecimentos, o mês de março, conhecido pela força das águas, graças às chuvas inesperadas e às enchentes que sempre atormentaram, todos os anos, as mais diversas regiões do nosso país, está querendo concorrer com o mês de agosto ( que rima com desgosto) em se tratando de perdas de vidas das mais significativas para o povo brasileiro.
             Como se não bastasse a morte do nosso Chico Anysio, o mestre do humor no rádio e na televisão, que nos ensinou a enfrentar, sorrindo, as constantes dificulda-des das nossas vidas, através dos muitos personagens famosos que soube criar para tornar mais divertida a existência de todos nós, eis que chega uma outra notícia que mais parece um complemento da primeira: o falecimento de Millor Fernandes.
           Quando a gente acaba de enxugar as lágrimas advindas da partida do nosso Chico, que lá se foi para a eternidade, deixando em cada um de nós a lembrança do seu humor fino e inesquecível, transmitido sempre através de um dos seus famosos personagens, eis que nos abalamos novamente com o falecimento de Millor Fernandes, nascido no dia 16 de agosto de 1923, no Rio de Janeiro, cidade onde sempre viveu e onde se destacou, ao longo da sua vida, como cartunista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor (impressionou a todos com suas traduções brilhantes das peças de Shakespeare), e falecido, como o Brasil inteiro já lamenta, na última terça-feira, 27 do corrente mês.
                 Qual o cinqüentão ou cinquentona que não se divertia, todas as semanas, nas páginas da revista “O Cruzeiro”, lendo o Pif-Paf, assinado por este incrível Millor Fer-nades ?
            Super-inteligente, dotado de uma capacidade incrível de fazer humor, Millor tornou-se, sem dúvida, uma das principais figuras da imprensa brasileira no século XX, obtendo grande sucesso de crítica e de público em todas as áreas artísticas por onde se aven-turou, como na ilustração, na tradução e na dramaturgia, tendo sido, por conta disso, várias vezes premiado.
                 Testemunhei. um dia, lá no Rio, nos estúdios da TV Globo, um encontro inusitado, onde Chico Anísio e Millor Fernandes se encontraram (não sei se pela primeira vez), participando de um evento jornalístico.
                  Embora a cena não despertasse a devida atenção, ali estavam, lado a lado, dois dos maiores humoristas brasileiros, que haveriam, ao longo dos anos, cada um a seu modo, transmitir, ao povo brasileiro, o riso que faltava, para que todos nós, que sempre nos divertimos com o Pif-Paf e com a Escolinha do Professor Raimundo, pudéssemos ficar devida-mente vacinados contra as mazelas que nos atingem todos os dias quando assistimos aos pro-gramas jornalísticos das emissoras de TV.
                     Parece que Deus teve pena de todos nós e manteve, ao nosso lado, por muito tempo, dois expoentes do humor e da alegria.

                     http://www.youtube.com/watch?v=pGBb8sm-RNw                                                                     

quinta-feira, 22 de março de 2012

CRÔNICA DA SAUDADE - março 2012

                                                                             

                O MENINO CECÉU

 
                   A música, como a poesia, sempre exerceram forte influência sobre a minha vida, fazendo surgir os meus ídolos e as minhas musas, determinando os caminhos literários que devia seguir, ora tentando compor alguma coisa ao som de uma melodia, ora transformando em versos algumas idéias que me chegavam á cabeça e que me pareciam, a priori, interessantes.

                     Dos poetas brasileiros – afora Augusto dos Anjos que é um caso à parte de amor sem limites – sempre morri de amores pela poesia fascinante de Castro Alves, o mais genial versejador do nosso romantismo, que teve uma vida tão breve quanto eterna e imortal foi a sua obra.

                     Foi na manhã do dia 14 de março de 1847, na Fazenda Cabaceiras, na cidade de Curralinho, no sertão da Bahia, que nasceu Antonio Frederico de Castro Alves, o menino Cecéu – apelido carinhoso que o acompanhou por toda a infância, identificando os parentes mais chegados e os verdadeiros amigos.  Em 1854, menino ainda, com apenas 7 anos, foi morar, com a família, em Salvador. Adolescente, sua poesia já ecoava no Ginásio Baiano, mostrando toda a força dos seus versos. Aos 16 anos, já faz sucesso no Recife com a publicação de seus poemas nos jornais locais. Nessa época, já começa a despertar a sua grande paixão pela atriz portuguesa Eugênia Câmara, musa dos poemas Meu Segredo e Pesadelo, assim como de parte de sua poesia lírica que, ao exaltar o amor sensual, ultrapassa a visão sublimada, própria dos românticos. Mas foi a partir do seu ingresso na Faculdade de Direito do Recife que o nosso Castro Alves deixou de ser um poeta iniciante para ser um poeta maior, engajando-se decisivamente na lua política, fundando, com um grupo de amigos, uma sociedade abolicionista, escrevendo poemas em favor do movimento republicano e lançando o jornal A Luz, voltado para a discussão de idéias, onde publicou, A Canção do Africano e Mocidade e Morte.

                       Quem despertou no poeta o entusiasmo pelo teatro foi Eugenia Câmara, já que os dois – ela e Castro Alves - encenaram, em Salvador, onde passaram a residir, em 1867, a peça Gonzaga, um sucesso que o consagrou na área teatral. Neste mesmo ano, no entanto – como se sentisse que tinha que aproveitar inteiramente todos os dias de sua curta existência – Castro Alves foi ao Rio, onde conheceu José de Alencar e Machado de Assis, passando a freqüentar as rodas intelectuais da época. Em São Paulo, onde resolveu continuar o curso de direito, fez grande sucesso nos teatros paulistanos, ao declamar poemas como Vozes d’África e Navio Negreiro. Tuberculoso, voltou à Bahia, onde lançou o livro Espumas Flutuantes, em 1870.

                     Na manhã do dia seis de junho de 1871, na mesma fazenda Cabaceiras da sua infância, o menino Cecéu, o poeta dos escravos, fechou os olhos para a vida, aos 24 anos de idade, na plena efervescência da sua genialidade, e foi morar lá no céu. 

                          Deus, ó Deus, onde estás que não respondes ?    

                           http://www.youtube.com/watch?v=IPbetX97Q_8