segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O CONTO DO MÊS - SETEMBRO


A força da terra

É muito difice, seu doutô, prá quem num sabe o qui é vivê na roça, intendê os mutivo que me fizero fazê o qui fiz. Cumparado com o sinhô, num passo dum pobre matuto,sem eira-nem-beira, qui véve, desna minino, de inxada na mão, iscavacano a terra do majó Netim, pro mode ajudá meu pai a tirá o sustento da gente. Imbora num seja nadinha - um gravêto de pau sêco sôrto no meio do mato -, e o sinhô, pelo qui tô vêno, é um hôme formado, de ané no dêdo, qui iscreve coisa pro jorná, fico achano qui tarvêis num intenda o qui me levô a fazê essa disconjuntice. Mai cuma tá me pidino, vô contá tudo o qui se deu, désna o dia im que essa pobre gente se arranchou puraqui. Qui diacho vinha fazê aquele povo todo, vindo num se sabe donde, nas terra do majó Netim - nesses cafundós do Juda, longe pra burro, onde o diabo perdeu as ispora ? A gente oiava um pro outro sem atiná coisa cum coisa. Inté qui o majó ajuntô a tropa pro mode dizê o qui tava havêno...

- Todas essas pessoas que invadiram as minhas terras pertencem ao Movimento dos Sem Terra. Elas querem terra para plantar e viver, o que é justo. Mas invadem as propriedades dos outros, avaliando-as como improdutivas, o que é injusto. Sem paciência para esperar uma negociação entre o Governo e os proprietários, visando a desapropriação da área, tomam-na para si, subvertendo as leis que garantem a posse da gleba, afrontando, assim, a justiça, como o fazem aqui e agora. Todos vocês, que sempre viveram nesta terra e daqui tiraram o dinheiro para o sustento das suas famílias, serão, sem dúvida, os maiores prejudicados. A terra invadida, que logo seria utilizada para pastagem do gado, aumentando o ganho de vocês, em pouco tempo não pertencerá mais à fazenda. É o que pretendo evitar. O MST armou os invasores. Nós também estamos armados. A terra é nossa. Legalmente, ela nos pertence. Não podemos deixar de lutar por ela. Para evitar o confronto armado, vamos enviar um grupo de homens ao local para conversar com os sem-terra e convencê-los a desistirem da invasão. Se eles resistirem, teremos que expulsá-los. Por bem ou por mal. O Chico Cirineu, que é meu homem de confiança, já escolheu o grupo que vai até lá. Espero que os convença, sem briga, a sairem das nossas terras. Boa sorte.

Daquele conversóro todo do Majó Netim, só intendi uma coisa: ele quiria que nóis butasse os cabra pra corrê das suas terra. Sem pudê dizê nada, arrecebi, do Chico Cirineu, um fuzi e uma caixa de bala, e cumeçemo a andá - eu e mai uns quinze - pra donde tinha se dado o rôlo. Machano pra lá, que ficava coisa de quage dez légua, foi qui pude pensá na vida que vinha levano e nas coisa que tava se assucedêno. Cuma já dixe, vosmicê, qui é doutô, qui sabe lê e iscrevê e qui véve na cidade, pode inté sabê um bucado de coisa qui nóis num sabe, mai deve de tá cum um fuzuê na cabeça pro mode intendê o qui se passô puraqui. Pro sinhô pudê atiná cum o qui se deu, tem qui sê do jeito qui a gente é. Num pode pensá cuma doutô. Tem qui sê cuma nóis. Num é só o jeito de falá qui é deferente. O jeito de vivê, tombem. O jeito de intendê as coisa e de gostá da terra. Desna qui naci, conto nos nos dedo as vez im qui tive qui i na cidade. É qui nóis num percisava daquilo lá. Tudo o qui a gente quiria, tava aqui. A casinha... a terra pro mode prantá... os carinho da muié... o amô dos fio... e o dinheirim suado qui o majó paga por sumana pro mode cumprá pano e comida. Nóis num tinha do qui arrecramá. Desna o avô... desna o pai... a vida era isso... sem tirá nem pô. Inté o dia im qui a gente chegô lá, no Pontá das Ema, pro mode cunversá cum os sem-terra. Chico Cirineu butô bala no gatilho e dixe pra todo mundo qui tava lá:

- O Majó João Neto, dono das terra, não quer ninguém aqui. Mandou dar inté amanhã, ao meio-dia, para que saiam da sua propriedade. Se não sair por bem, vão ter que sair na bala. Vamos ficar por aqui e esperar. Quem não sair... morre !

Teno ficado de guarda numa grota, donde pudia oiá o qui se passava naquele amuntua- do de casinha de lona, pude ajeitá as idéia na cabeça. Aquela gente qui tava ali pudia sê tudo, meno cabra de pêia qui véve increncando. Os hôme tumava conta das muié, qui tumava conta dos bruguélo, qui ficava pro lá brincano, cuma quarqué minino ou minina qui tem puraí. O qui a gente via era um bucado de famia percurano um lugá pro mode ficá. As muié cuidava da janta, lavava os pratos, varria o chão, dava banho nos fio. Os hôme, de inxada na mão, iscavacava a terra e prantava. Num era bandido, não. Era roceiro qui nem eu. Só qui tava na terra qui num era dele, fazeno tudo aquilo sem pidi licença ao doutô Netim. A desorde era essa. Só essa. E purisso pudia inté morrê. Assunte bem o qui tô dizêno, seu doutô: se aquela gente qui tava ali fosse qui nem eu, qui cuidô da terra a vida intêra cuma se fosse o dono, ganhano, toda sumana, o dinheirim pro mode sustentá a famia, juro pur Nosso Sinhô qui eles num tavam ali quereno tumá as terra dos outro. Sem tê pra donde i, sem tê cuma cuidá da muié e dos fio, sem tê um tiquinho de terra qui seja pro mode prantá, o qui diacho pode fazê um pai de famia, a não ser perdê a cabeça e sai puraí tumano um pôco de terra de quem tem dimai ? Foi cum essas idéia na cabe- beça, seu doutô, qui arresorvi falá cum os hôme qui tava lá nas barraca, cum o fito de num deixá qui se desse morte pur conta daquela desavença. Se inté o meio-dia a coisa ficasse do jeito qui tava, o sinhô pode acriditá qui o Chico Cirineu - hôme brabo e cumpridô das orde do Majó -, ia butá aquele povo pra corrê dibaxo de bala. Atinei qui percisava fazê arguma coisa pro mode num deixá que se desse uma sangueira por causa dessa ingrisia. Sem pensá im mais nada, fui me achegano duma barraca e dixe bom dia prum hôme magro, arto, qui tava cum um minino no braço. Assim qui me viu, foi dizêno:

- Bom dia, moço. Acho mió qui vorte pro lugá adonde tava.

- Só tô quereno proseá um pôco... - dixe, com jeito.

- Nóis num tem o que proseá. Tu veio pro mode tirá a gente daqui.

- Tô tentano atiná pur qui diacho tão quereno tumá as terra do Majó Netim.

- Tá bom. Se arranche, entonce. Pegue um tamborete e se assente qui eu vô contá o qui é qui nóis veio fazê aqui.

E foi assim, seu doutô, qui o hôme - qui se dizia Zé Inaço - cumeçô a contá cuma foi qui tudo se deu, pra qui toda aquela gente arresorvesse tumá conta das terra do Pontá das Ema.

- Cuma é mermo teu nome ?

- Tonho... Tonho Lima... cunhecido cuma Liminha...

- Apois, seu Tonho, o sinhô se dê pur filiz im tê um lugá adonde ficá cum sua famia. Nóis num tem lugá argum. A gente véve cuma uns disgarrado, sem tê pra donde i nem adonde ficá. A gente tem força, tem mão, tem pé, tem cabeça pro mode pensá, mais num tem a coisa mió qui um hôme deve de tê, qui é um pedaço de terra, pro mode fazê sua casa e prantá, tirano, dali, o sustento da famia. De nada dianta tê mão, se a gente num tem um pôco de terra pro mode trabaiá; de nada dianta tê pé, se a gente num tem pra donde i; de nada dianta vivê, se gente num tem cuma criá a muié e os fio.

- Mai a terra é do Majó Netim...

- Nosso Sinhô, quano fez o mundo, num deu terra pra hôme ninhum. Foi a força do poder ou do dinhêro qui deu muita terra pra uns e deixô os ôtro sem nada. A gente deve de mudá o qui tá errado. Todo hôme tem qui lutá pur seu chão. Se a lei é contra isso, nóis tem qui mudá a lei.

- Tu pode inté tá certo, Zé Inaço - pode inté sê qui as terra deva de sê de toda gente -, mai num é desse jeito qui o mundo é. A terra do majó é do majó. Vale o qui tá no papé. É terra qui o majó herdô do seu pai, qui herdô do avô, que num sai da famia. Se tu e os ôtro num saí da terra inté o meio-dia, o Chico Cirineu vai fazê cumpri as orde do Majó, vai mandá bala e matá o cabra qui ficá aqui.

- Qui mate ! Qui é qui a gente tem mai a perdê, tirante a vida ? Pode morrê um... dois... inté mais... o qui se pode fazê ? Se a morte de dez quisé dizê qui vinte ficaro cum sua terra, tá tudo bom.

- Qué dizê qui tu nem os ôtro vai arredá o pé...

- Só se fô morto...

Do jeito qui a coisa tava, seu doutô, vosmicê tá vêno qui eu num tinha outra coisa a fazê, a não sê fazê o qui fiz. Quano o só im brasa ficô im riba da cabeça da gente, bem no cocuruto do céu, o Chico Cirineu oiou pro relójo, fez siná pros hôme pro mode cercá as barraca e, de fuzi na mão, apontano pro Zé Inaço, foi logo dizêno:

- Já é meio-dia. Todo mundo tem qui sai daqui. É orde do Majó Netim, o dono das terra. Se num sai, tu vai sê o premêro a levá bala, seu cabra safado !

O doutô percisava vê a agunia da muié do Zé Inaço, chorano agarrada aos fio, e a corage daquele hôme, desaimado, sem nada fazê, esperano o disparo. Nem sei o qui diacho me levô a fazê isso, mai quano dei pur mim já tava de fuzi apontado pra cabeça do Chico Cirineu.

- Sai do meio, Liminha, qui eu vou metê bala nesse sujeito !

- Pro mode atirá nele, Chico, tu vai tê premêro qui atirá neu, e tu, qui cunhece bem a minha puntaria, sabe qui pode morrê im meu lugá !

- Tu ficô doido, hôme ? É orde do Majó Netim ! Se num sai daí, eu atiro im tu ! Sai da frente, Liminha !

- Vorte pro mode dizê ao majó qui eu tô quereno falá cum ele.

- Se num sai do meio agorinha mêrmo, eu atiro !

- Num tente.

- Lá vai bala, Liminha ! Foi tu qui pidiu !

E foi desse jeito, seu doutô, qui tudo se deu. Cum um tiro no meio da testa, o Chico Cirineu se derriô pelo chão, se estribuchô pur um tempo e, adispois, ficô lá, istendido, já sem vida. Um dos hôme foi inté à fazenda e contô tudo ao Majó Netim, qui mandô me chamá. O qui se passô adispois, o sinhô já tá sabêno. O Majó uviu o qui eu tinha pro mode dizê e, tendo ao seu lado um diputado seu amigo - hôme muito forte lá pras banda da capitá federá -, arresorveu arranjá umas terrinha praquela gente. É purisso qui mandô o avião pro mode buscá o sinhô. Inté os lecutô da televisão ele mandô qui viesse. É pra dizê qui arresorveu dá de mão beijada o Pontá das Ema a quage cem famia do povo do Zé Inaço. E vai sê tudo de papé passado. E o Majó Netim nada pidiu im troca. Eita, hôme bom da peste, seu doutô ! Só uma coisinha a gente vai dá pra ele. E é justo inté dimai. Na ôtra inleição - ele já dixe - vai sê candidato a Senadô. Tinha inté graça. A gente vai tudim votá nele. Nóis vai votá pro mode fazê cum qui todo mundo passe a tê a sua terrinha. O qui é qui o sinhô acha, doutô ?

- A minha reportagem acaba aqui. Já ouvi o que tinha de ouvir.

- E o Majó Netim ? Num vai falá cum ele ?

- Fica pra outra hora. O heroi dessa história é você.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

CRÔNICA DA SAUDADE - 10/09/10

HISTÓRIAS DE CINEMA

Foi com Fernando Spencer, lá em Recife, que aprendi – não só pelos seus comentários abalisados no Diário de Pernambuco, mas – e principalmente – pela importância do seu acervo particular, existente na sua residência – a gostar, a admirar e, mais do que isso, a dar o devido valor à história da sétima arte.

Se dependesse de Fernando, todos os antigos cinemas do Recife ainda estariam em funcionamento e, em caso de fechamento, seus edifícios teriam de abrigar, necessariamente, instituições culturais ligadas à história cinematográfica, onde as pessoas poderiam ter acesso a um verdadeiro museu.

Na verdade, os cinemas de cada cidade fazem parte da própria história cultural das populações, que sempre viveram atreladas ao seu principal divertimento ao longo de tantos anos – até mesmo agora, em pleno século XXI, quando a TV a cabo e via satélite, além dos DVDs, trazem o cinema para dentro de nossas casas -, o cinema continua sendo uma grande atração, inclusive para as novas gerações que não deixam de freqüentar, na segurança dos shoppings, as diversas salas de projeção.

Qual o sessentão, vivido em João Pessoa, que não relembra com saudade as animadas matinais do Plaza nos anos felizes da sua infância ? E nos anos dourados da juventude, como esquecer as matinées badaladas do Cine Brasil, onde todos se reuniam, não só para assistir aos filmes, mas para namorar ? E as sessões calientes do Rex e do Municipal, onde os filmes mais comentados eram exibidos em noite de gala ? Isso prá não falar dos cinemas de bairro, como o Jaguaribe e o Metrópole, que só exibiam reprises ?

Desses cinemas citados, apenas o Municipal continua firme, mantendo, mesmo com pouca platéia, a sua programação de longa-metragens.

Todos se recordam, sem dúvida, de alguma passagem de sua vida ligada ao escurinho de um cinema, a um filme que jamais foi esquecido, a momentos felizes que ficaram para sempre em nossas existências, como num filme épico, mostrando tudo quanto de bom foi vivido.

Das manhãs felizes da infância, sorrindo e vibrando com as aventuras dos heróis mascarados na tela do Plaza, passando pelos vesperais das moças do Cine Brasil e, mais adiante, já na idade adulta, presente aos lançamentos de luxo nos salões requintados do Rex e do Municipal, lá se vão acontecimentos que marcaram uma vida inteira e que jamais serão esquecidos.

Atenção. Apaguem as luzes. Liguem os projetores. Vai começar mais uma sessão de cinema. Em cartaz, o grande filme das nossas vidas !

Oremos a Deus para que tenha um final feliz.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

CRÔNICA DA SAUDADE - setembro


REVENDO O PASSADO

Você pode escrever a história de uma cidade, fazer uso de todo o seu poder de descrição para que tudo chegue ao conhecimento dos seus leitores nos mínimos detalhes – pode, afinal, colocar, em cada frase, tudo aquilo o que vê em sua volta -, mas mesmo assim, com esse cuidado e sensibilidade, será difícil, senão impossível, fazer com que as pessoas consigam ver o que foi descrito, sem que haja, junto ao texto, fotos ou ilustrações.

È por isso que dizem – principalmente quando se está diante de uma belíssima foto – que, na maioria das vezes, uma imagem vale mais que mil palavras.

Sou do tempo dos velhos sobrados da rua Duque de Caxias, onde, em um deles, funcionava o Foto Stuckert, um dos pioneiros em fotografia da nossa capital. Poderia falar também do Foto Estrela. Do Foto Hudson. De tantos outros que surgiram no centro, na época, todos comandados por grandes profissionais da fotografia. Só que o Foto Stuckert me fala mais desse tempo, pois era no primeiro andar do velho sobrado, onde morei por mais de um ano, tendo vindo de Campina para cá, enquanto estudava no Lyceu.

Foi com Gilberto Stuckert – casado com a minha tia Zilete – que aprendi a valorizar o simples gesto de acionar uma máquina fotográfica para guardar, numa foto, uma paisagem qualquer da cidade. Ele dizia que, à cada fotografia tirada, o passado de João Pessoa ia ganhando mais um arquivo, para que, no futuro, as gerações de então pudessem conhecer a cidade de um tempo que já não existia mais. O pai de Gilberto, “seu” Eduardo – que era, na verdade, o pintor, desenhista e fotógrafo sueco Eduardo Francis Rodolf Deglon Stuckert – foi quem primeiro captou as imagens da capital, de 1900 a 1940, sendo seguido, pelo filho, de 1930 a 1970 – existindo, hoje, juntando-se aos dois alguns outros fotógrafos do período, mais de mil fotografias da cidade de João Pessoa e de algumas personalidades que fizeram a sua história.

“Seu” Eduardo faleceu na década de 40, mas passou, para o filho, Gilberto, os negócios de fotografia, que continuaram até o seu falecimento no dia 20 de outubro de 1986, quando passou todo o seu acervo para Gilberto Stuckert Filho, que publicou um livro com esses registros que remontam ao ano de 1870.

As fotos, por si só, falam da evolução da cidade, mostrando os mais diversos meios-de-transporte – que vai do velho bonde de tração animal aos bondes elétricos, das marinetes aos ônibus modernos -, assim como as mudanças arquitetônicas e os novos e modernos caminhos criados ao longo do tempo.

Vendo as fotos, a gente revive o passado de João Pessoa. E – por que não dizer ? - o nosso próprio passado.

O pessoense já bem vivido, ao ler o livro, vêr-se-á em cada uma de suas fotografias.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O CONTO DO MÊS - AGOSTO





A NOITE DO FIM DO MUNDO

São José da Serra Buchuda. Na lembrança do santo, o nome o fundador da cidade, um Zé qualquer, dono de um sítio, com bastante tino comercial, que lá instalou uma bodega pra atender aos roceiros das redondezas e diverti-los, com duas sinucas e mesas de carteado. Até hoje - trinta anos depois - ainda se fala no cassino do Zé da Bodega, que depois se transformou num bordel, cheio de rapariguinhas novas, sob o comando da sua viúva, a mulata Idalina, que deixou, depois de velha e alquebrada, o negócio pras filhas, que ainda vivem do cabaré, agora conhecido como Night & Day. E a Serra Buchuda ? É só olhar, da rua principal da cidade, o imenso serrotão ao longe, sob a forma de uma barriga de mulher grávida, com umbigo saliente e tudo o mais. A partir daí, foi fácil: o sítio do Zé se transformou em São José da Serra Buchuda, como é conhecida, hoje, a cidadezinha de mil e poucos habitantes, encravada nos socavões dos sertões nordestinos.

Os buchudenses - como eles próprios gostam de ser chamados - sempre viveram aquela vidinha típica do interior esquecido, onde os dias e as noites se sucedem numa monotonia irritante, sem que nada de novo aconteça, e as notícias do mundo exterior só chegam através do rádio e da TV, graças à meia dúzia de antenas parabólicas, que servem ao prefeito, ao juiz e a alguns proprietários de terra das cercanias. Acessada apenas por duas estradas vicinais, sempre mal conservadas, poucos são os veículos que se aventuram a percorrer os duzentos e tantos quilômetros que a separam de uma cidade mais em conta. Um único posto telefônico a serve com dificuldade. Fadados ao isolamento, vivendo da agricultura de subsistência, seus habitantes se acomodaram e aceitaram aquela rotina como parte integrante de suas vidas.

Guardadas as devidas proporções, tanto em Nova York como em São José da Serra Buchuda, os acontecimentos inerentes ao ser humano, nascidos dos sentimentos que norteiam a nossa existência, são perfeitamente idênticos, com reações diferenciadas apenas pelo grau de entendimento oferecido por visões, nem sempre iguais, de um mesmo prisma.

- O mundo vai se acabar, prefeito ! - foi dizendo, bastante assustado, o delegado Valdevino, entrando, de sopetão, na sala do doutor Vinagre.

- Que história é essa, Valdevino ? - quis saber o prefeito.

- Boi Preto falou.

- Ele falou ?

- Falou. Um bocado de gente foi lá e ele falou. Disse tudo.

- Tudo o que ?

- Tudo. O que vai acontecer. Os sinais. O dia. A hora. Tudo !

- E eu não lhe pedi que ameaçasse o preto velho pra que não dissesse besteira e endoidecesse o povo ?

- E eu ameaçei, prefeito. Fui lá e pedi que parasse com essa história de andar dizendo que o mundo vai se acabar. Disse a ele que o senhor o mandaria prender !

- E ele ?

- Calado estava, calado ficou. E o resultado taí.

- Vamos ao Bar do Ôsso.

Quando ocorria um problema sério na cidade, envolvendo a população, as mulheres corriam pra igreja e os homens pro Bar do Ôsso, uma espécie de centro de fofocas e tribunal de inquisição local. Ali, as pessoas eram taxadas disso ou daquilo, e não tinham como fugir do que fora determinado. Se era corno, era corno. Se era viado, era viado. E não adiantava estribuchar.

- E agora, prefeito ? - foi logo perguntando o Chico Alambique, único vereador da oposição e ferrenho inimigo do doutor Vinagre. Enquanto o senhor só pensa na sua reeleição, o mundo tá se acabando !

- Se você parasse de beber, Chico, podia até entender que isso é uma maluquice e que o mundo não vai se acabar coisa nenhuma ! - disse o prefeito.

- Se eu fosse você - entrou na conversa o Zé Gordo, o dono do bar - não duvidaria, antes de ouvir a história.

- Que história ?

- A história de quem foi até lá e ouviu o Boi Preto falar.

Juntaram-se todos - Chico do PT, o Gordo, o Zeferino Carteiro, Onofre da Bodega, Tião Dentista - o Alicate -, Zé da Oficina, João da Padaria, Manuel da Gasolina, e muitos outros, figuras conhecidíssimas na cidade, e puseram-se a contar a história, cada um acrescentando suas observações.

- O Boi Preto ficou em silêncio, garantindo que só voltaria a falar, quando o anjo lhe aparecesse de novo, conforme prometêra, para anunciar o fim do mundo - observou Zeferino. Por mais que a gente forçasse, ele nunca mais pronunciou uma só palavra. Até hoje. De tardezinha, mandou chamar todo mundo. Com muito esforço, fomos até lá. Caminhamos mais de uma légua, subimos a Serra Buchuda e entramos na gruta, onde sempre viveu. Lá dentro, iluminado por algumas velas acesas pelos crentes, o Preto Velho, passando as mãos enrugadas nos cabelos brancos, assim falou: “O anjo apareceu e disse: Como prometí, estou de volta. É a minha última visita. Vim dizer ao Boi Preto que o mundo vai se acabar. Na noite deste sábado, um terrível temporal se abaterá sobre São José. Raios e trovões. Vento forte. As águas do Rio Sêco invadirão as terras baixas, inundando tudo. Muitas casas serão destruídas. A igreja cairá por terra. Todos morrerão. A não ser que estejam aqui, a meu lado, no alto da Serra Buchuda. Esses escaparão.”

O doutor Vinagre, ouviu tudo, pacientemente, e depois, com ar de deboche, virou-se para os que ali se encontravam e falou:

- Como é que vocês podem acreditar numa história dessas ? O Boi Preto tá com quase noventa anos... tá gagá... não sabe mais o que diz ! Imagine só ! Quanto tempo faz que não chove em São José ? Cinco anos, entrando pra seis ! Tem menino aqui que nunca viu um pingo de chu-

va ! E o rio Sêco - coitado ! - já tem esse nome porque há muito tempo que não corre água no seu leito ! E o preto velho tá dizendo que as águas do rio vão invadir e destruir tudo ! Tudo isso é um absurdo ! Nada vai acontecer ! Amanhã, o dia vai ser ensolarado como sempre e a noite terá uma enorme lua cheia num céu azul ! Vão dormir e esqueçam essa conversa de fim do mundo !

Muita gente caiu em si e acompanhou o prefeito, que deixou o recinto. Outros ficaram, no embalo daquela sexta-feira, enchendo a cara de cana pela noite a dentro.

Só que, no sábado, no começo da tarde, dezenas de pessoas, em romaria, seguiram a trilha da Serra Buchuda e se alojaram nas muitas cavernas que lá existem, conduzindo mantimentos e dispostas a permanecerem no local até o dia seguinte.

Por volta das seis horas da noite, um trovão se fez ouvir na distância, estremecendo tudo. E mais outro. E outro mais. Sequenciando os trovões, raios cortavam o céu escuro, iluminando a noite, enquanto um vento forte dobrava a copa das árvores, levantava nuvens de folhas secas e obrigava as pessoas a fecharem portas e janelas. Silenciosos e angustiados, os buchudenses observavam tudo aquilo, corações descompassados, lembrando as palavras do Boi Preto.

- É o fim do mundo ! - balbuciou o Zé Gordo, fechando o bar e correndo pra casa.

Enquanto a natureza, enfurecida, exibia a sua força e um aguaceiro nunca visto caía sobre a região, homens e mulheres, ante a iminência da tragédia, debruçaram-se sobre o pouco de vida que lhes restavam e abriram seus corações. Esposas tidas como fiéis confessaram seus casos amorosos, maridos deixaram suas mulheres para viverem seus últimos momentos nos braços das amantes. Grandes e pequenas confidências vieram à tona e até o Zé Vaqueiro, cabra macho e valente, respeitado por todos, resolveu assumir a frescura reprimida. Nada escandalizava a ninguém, porque nada mais importava. E quando as águas do rio Sêco entraram de cidade a dentro e derrubaram a igreja e uma dezena de casas, ninguém segurava mais ninguém. Foi um festival de aberrações sexuais que fariam corar de vergonha as jovens do Night & Day.

Lá pras cinco da madrugada, a chuva e o vento pararam. Sumiram os raios. Calaram-se os trovões. E um sol, num céu sem nuvens, foi, aos poucos, surgindo no horizonte.

Na gruta, alguém catucou o Boi Preto, que parecia dormir.

- Boi Preto... o mundo não acabou !

Boi Preto estava morto.

E São José da Serra Buchuda jamais voltou a ser a mesma.

Seu mundo sem graça chegára ao fim.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

CRÔNICA DA SAUDADE - AGOSTO 2010


A FORÇA DE UM PAI

Quando conheci Sergio Bittencourt nos corredores da antiga TV Tupi, no Rio, antes do início do Programa Flávio Cavalcanti, emocionei-me ao conhecer de perto muito mais o jurado famoso que sempre dava notas sensatas e merecidas aos calouros (ao contrário da Márcia de Windsor que só dava nota 10) do que o jornalista e compositor de tanto sucesso, que o Brasil inteiro aplaudia. Num bate-papo informal enquanto a gente tomava um cafezinho, fiquei sabendo do amor imenso que Sergio sempre havia dedicado ao seu pai, Jacob do Bandolim. Soube ainda que, para tristeza minha, o inspirado jurado, compositor e jornalista, era hemofílico desde a mais tenra idade e, apesar da sua luta constante contra a terrível doença, havia perdido praticamente uma das pernas, locomovendo-se com dificuldade. Foi da sua própria voz que ouvi um breve relato da morte do pai: Foi num dia 13 de agosto de 1969 – esse agosto é sempre insano – que meu pai, dirigindo sozinho o seu carro, chegou à sua casa, em Jacarepaguá, vindo da residência de um dos seus poucos ídolos, Pixinguinha, e – já ofegante –avisou que estava morrendo, sendo recostado pela mulher e pelo sogro no chão da grande varanda, onde morreria. Jacob Pick Bittencourt foi, para mim, mais do que um pai, do que um amigo, do que um ídolo. Ele foi, é e será sempre, para mim, um homem, desses que a gente escreve com “agá” maiúsculo, um ser genial. Tenho certeza e assumo: não sou nada, porque, de fato, não preciso ser. Me basta ter a certeza inabalável de que nasci do amor, da loucura, da irrealidade e da lucidez de grande gênio. À época, o compositor Sergio Bittencourt ainda sentia os aplausos do público brasileiro ao ouvir o grande sucesso do momento: Naquela Mesa, um samba-póstumo que Sergio fizera em homenagem ao seu pai e que voz de Elizeth Cardoso o imortalizou.

Foi num dia 13 de agosto, Dia dos Pais à época, que o cronista fica sem saber, ao certo, a quem homenagear: se a Jacob Pick Bittencourt, que nasceu no Rio, no dia 14 de fevereiro de 1918, tendo falecido na mesma cidade, num dia como o de hoje, ou a seu filho, Sergio Bittencourt, que na cidade maravilhosa também nasceu, em 1941, deixando inúmeras musicas de sucesso, inclusive o Naquela Mesa, onde homenageia o pai, até que a morte, um dia, em 9 de julho de 1979, também o levou, vítima de um enfarte, aos 38 anos.

A homenagem, justa e merecida, deve ficar para os dois expoentes da nossa música: para Jacob, por ter sabido ser um pai, na verdadeira expressão da palavra, e por ter legado à música popular brasileira tantos sucessos que ainda hoje recebem os aplausos do público; e ao seu filho, Sergio, por sua declaração pública de amor ao pai que sempre teve, através de uma composição que, ainda hoje, mais de trinta anos depois, continua presente em nossas vidas, tornando mais bela a data que hoje comemoramos.

Cada filho que, no dia 8 de agosto, estiver ao lado do seu pai, feliz com a felicidade daquele homem que sempre o guiou na vida, pode emocionar-se muito mais ainda, ouvindo a historia que Sergio Bittencourt nos conta com sua música.

Jacob foi um pai que serviu de inspiração a um grande filho.

CRÔNICA DA SAUDADE - AGOSTO 2010


O CANTOR DAS MULTIDÕES

Quando nasceu, no dia 03 de outubro de 1915, numa casa simples da Estação do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, Orlando Garcia da Silva era uma criança pobre como muitas outras, cujo nascimento foi festejado, com música, por seu pai, que era um exímio violonista, tendo participado, inclusive, à época, da formação do conjunto Oito Batutas, do famoso Pixinguinha.

Incentivado por seu irmão Eduardo, Orlando começou a ensaiar para fazer um teste na Rádio Cajuti, quando o compositor Bororó, encantado com sua voz, resolveu apresenta-lo ao grande Francisco Alves. Na oportunidade, Orlando, que tinha apenas 17 anos de idade, cantou a valsa Mimi, deixando o nosso Chico Alves entusiasmado, a ponto de convida-lo a se apresentar no seu programa na Rádio Cajuti. Foi o primeiro passo para o sucesso, já que, três anos depois, gravava seu primeiro disco, na RCA Victor, com o samba-canção No Quilômetro Dois, de Aimberê, e o samba Para Deus Somos Iguais, de J. Cascata e J. Barcelos. No mesmo ano, o jovem Orlando Silva já gravava dois clássicos do seu repertório: o noturno Última Estrofe e a valsa Lágrimas, de Cândido das Neves, além de dos sambas Não é Proceder e Já é de Madrugada, de Assis Valente.

A partir daí, apresentando-se nas principais emissoras do Rio, à época, Orlando Silva gravou inúmeras musicas que se tornaram sucessos populares, como Tristeza, de J. Cascata, e Dama de Cabaré, de Noel Rosa, tendo participado, no dia 12 de setembro de 1936, da inauguração da Rádio Nacional, passando a ser o primeiro cantor a ter um programa exclusivo naquela emissora. No auge da sua forma vocal, Orlando gravou, em 1936, com a Orquestra da RCA Victor, a valsa Lábios Que Beijei, da dupla J. Cascata e Leonel Azevedo, tendo, no outro lado do disco, com Radamés Gnatalli e sua orquestra, Juramento Falso, da mesma dupla de compositores, dois dos sucessos mais marcantes da sua carreira. E vieram, desde então, outras interpretações inesquecíveis, como a valsa Aliança Partida e o samba-canção Amigo Leal, ambas de Benedito Lacerda; Boêmio, samba de Ataulfo Alves; Carinhoso, samba de Pixinguinha; a valsa Rosa, também de Pixinguinha (música preferida de Dona Balbina, mãe do cantor, e que ele jamais voltaria a interpretá-la após a sua morte); a marchinha A Jardineira, de Benedito Lacerda; Abre a Janela, de Arlindo Marques; Caprichos do Destino, valsa de Claudionor Cruz; Nada Além, fox de Custódio Mesquita; os sambas Meu Pranto Ninguém Vê e Errei,Erramos, de Ataulfo Alves; Página de Dor, de Custódio Mesquita; Balalaika, de George Moran; Meu Consolo é Você, de Nássara; Dá-me Tuas Mãos, de Roberto Martins; Uma Dor e Uma Saudade, de Zé Pretinho; Sertaneja, de René Bittencourth; Súplica, de Otávio Mendes; Preconceito, de Marino Pinto; Adeus, de Silvino Neto; Inquietação, Faceira, Risque e Terra Seca, todas de Ary Barroso; Serenata do Adeus, de Vinicius de Moraes, e centenas de outras interpretações que ficaram para sempre em nossa lembranca.

Neste mês de agosto (ele morreu no dia 7), os brasileiros estão chorando de tristeza nos 32 anos de saudade de Orlando Silva – o cantor das multidões.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

CRÔNICA DA SAUDADE - 10/08/2010

O REI DO ROCK

Se vivo fosse, Elvis teria comemorado, no início deste ano, seus setenta e cinco anos de vida. Mas a morte o levou exatamente há trinta e três anos, num mês de agosto como este que estamos atravessando, tendo sido convocada por ele mesmo – que tudo fez para não continuar mais neste mundo – a fim de que pudesse cumprir a sua maravilhosa e, ao mesmo tempo, trágica missão aqui na terra.

Elvis Aron Presley nasceu no dia 8 de janeiro de 1935, em Tupelo, Missouri, nos Estados Unidos, filhos de agricultores, de origem humilde, tendo mantido os seus primeiros contatos com a música durante a infância, em Memphis, no Tennessee, onde cantou no coro da igreja e recebeu a influência do blues. Contratado pelo produtor musical de rhythm and blues, Sam Philips, então à procura de um cantor branco que cantasse como um negro, foi negociado, no ano seguinte, com a RCA Victor, que deu realmente o destaque que seu nome precisava para surgir no mundo do disco. Ao apresentar-se, em 1956, no programa de televisão dos irmãos Dorsey, foi tão grande a repercussão da sua música, que seu álbum Heartbreak Hotel alcançou, num único ano, a marca de nove milhões de cópias vendidas – à época, uma vendagem verdadeiramente notável.

Com o filme Love me Tender, primeiro de uma série de 33 – todos com estrondoso sucesso de bilheteria -, Elvis foi se transformando, aos poucos, no rei do rock and roll – título que marcou a sua vida, a sua carreira e que o tornou no grande ídolo de milhões de pessoas em todo o mundo.

Até no serviço militar, entre 1958 e 1960, quando serviu ao exército dos Estados Unidos na Alemanha, ele soube transformar a sua imagem de soldado em sucesso sem precedentes. Com seu carisma e sensualidade, o cantor provocava reações histéricas nas platéias fervilhantes de adolescentes, quando seus movimentos sinuosos nos quadris lhe valeram o apelido de The Pélvis.

Entre seus grandes sucessos musicais, podemos destacar Hound Dog, Love Me Tender, Teddy Bear, It’s Now or Never, Can’t Help Falling in Love, Surrender, Burning Love, The Wonder of You, Moody Blue e muitas outras musicas marcantes, que ainda hoje são lembradas em todo o mundo.

Ao falecer, vencido pelas drogas, em 16 de agosto de 1977, oito milhões de cópias dos seus discos se esgotaram em apenas cinco dias, tão grande foi a consternação causada em todo o mundo.

A sua musica ficou, no entanto, eternizando o mito: se alguém tinha dúvida, agora pode garantir que, realmente, Elvis jamais morreu para seus fãs.

Ele continua vivo em cada um de nós.