terça-feira, 29 de junho de 2010

CRÔNICA DA SAUDADE


UMA NOITE QUE FICOU

Existem pessoas que chegam à esta vida e logo começam a formar o seu destino, independente das condições financeiras que a cerquem, passando a fazer tudo o que tem que ser feito com extrema rapidez, principalmente quando o seu período de permanência entre nós é bastante curto para que se possa atingir todos os objetivos traçados.

Dolores Duran foi uma dessas invulgares inteligências, voltadas para a música e para a poesia, mas que teve que lutar contra o tempo – bastante exíguo em sua rápida passagem pela vida – para que pudesse deixar, para a posteridade, algumas das mais belas páginas da música popular brasileira.

Tendo nascido no dia 06 de um mês de junho como este que estamos vivenciando, frio e chuvoso, na rua do Propósito, no bairro da Saúde, no Rio, Adiléa da Silva Rocha – era esse o seu verdadeiro nome – começou a cantar desde os três anos de idade, chamando a atenção dos pais e dos amigos. Aos dez anos, incentivado por um amigo da família, participou do programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso, interpretando uma fantasia mexicana intitulada Vereda Tropical, com letra em português e espanhol. Não deu outra: tirou a nota máxima, recebeu elogios de Ary e 500 mil-réis, o que lhe abriu caminho para que aparecesse em outros programas em várias emissoras cariocas.

Ao participar do concurso À Procura de uma Cantora de Boleros, organizado por Renato Murce na Rádio Nacional e tendo facilidade em pronunciar palavras em inglês, francês, italiano e espanhol, a nossa Adiléa, menina ainda, aos 15 anos, alcançou grande sucesso e, ao ser convidada para trabalhar em shows na Buate Vogue, já havia adotado o pseudônimo de Dolores Duran. Ao mesmo tempo, César de Alencar conseguiu coloca-la sob contrato na Rádio Nacional, ganhando 150 mil-réis por mês. Tornou-se, em pouco tempo, uma das mais consagradas cantoras noturnas, apresentando-se, diariamente, nas mais famosas buates do Rio de Janeiro. Foi no final de 1951 que gravou seu primeiro discos, com os sambas Que bom Será e Já Não Interessa, pela gravadora Star. Só a partir de 1954 é que Dolores começou a gravar músicas de muito sucesso, A Canção da Volta, de Antonio Maria, O Amor Acontece, de Celso e Flávio Cavalcanti e Manias, dos mesmos autores, Se é Por Falta de Adeus (a primeira música de sua autoria), Canção da Volta, de Ismael Neto e Antonio Maria, Por Causa de Você, de parceria com Vinicius, além de Estrada do Sol, Idéias Erradas e Castigo, Não Me Culpes e Solidão, todas de sua autoria, que foi sucesso inclusive nas vozes de várias amigas, como Marisa Gata Mansa.

Ao compor A Noite do Meu Bem, em 1959, diferenciando-se das outras composições que fazia questão de dividi-las com músicos e letristas da sua amizade, Dolores Duran fez questão de faze-la sòzinha, como se fosse uma marca na sua vida – uma música que haveria de eternizar o seu nome. Assim que a gravou, aos 29 anos, no dia 24 de outubro de 1959, chegou em casa cansada, deitou-se para repousar e não mais acordou.

A noite de Dolores ficou para sempre na lembrança de todos nós.

sábado, 19 de junho de 2010

O CONTO DO MÊS


A justiça

dos homens

N aquele dia, após uma semana de constantes julgamentos, o que Pôncio Pilatos mais desejava é que nada mais acontecesse que pudesse exigir a sua presença. Sentia-se cansado e seu corpo, já não muito jovem, pedia paz e descanso, o que não era fácil de se conseguir naqueles dias turbulentos vividos em Jerusalém, quando o povo, sem acreditar em mais nada, temia apenas o poder de César e exigia provas da sua força, através da condenação pública dos seus inimigos.

- É verdadeiramente insuportável - dizia a um dos sumos-sacerdotes - essa incontrolável ânsia do povo, que não se cansa de exigir o sangue dos seus pretensos inimigos para minimizar a pobreza, a ignorância e a desesperança em que vive.

Ante o silêncio do seu interlocutor, Pilatos andava, vagarosamente, pela enorme e luxuosa sala onde costumava receber amigos e, ao passar por uma poltrona, adornada com frisos de ouro, deixou-se cair pesadamente, levando as mãos à cabeça, já bastante calva.

- Se a gente tivesse o poder de julgar sempre com justiça, de acordo com a nossa consciência, até que dava para suportar tantos problemas. Só que não é assim. Dependemos da vontade do povo. Aqui, o que menos importa é o voto da Corte. O Sinédrio emudece. Herodes se cala. E a vida de mais um homem acaba em minhas mãos. E eu, para tomar decisões, sou obri gado a ouvir a voz da turba e a guiar-me por ela, que quase sempre está a exigir a morte de mais alguem, seja culpado ou inocente, para seu capricho ou divertimento.

Timóteo, sendo sumo-sacerdote, mas amigo de Pilatos antes de tudo, interveio com ponde-ração:

- Não deves permitir que tais conceitos cheguem aos ouvidos de pessoas ligadas a Cesar e tu sabes muito bem porquê.

- Eles chegam somente a ti, em quem confio, e a quem tenho a ventura de chamar de amigo.

- E tu sabes que concordo plenamente com o que dizes e que são minhas as tuas palavras quando criticas a inutilidade

desses julgamentos.

Pilatos voltou a levantar-se e, com as mãos às costas, começou a caminhar em torno do amigo, sempre demonstrando a sua revolta:

- Roma está inquieta. É forte, é poderosa, é rainha absoluta, mas é, ao mesmo tempo, frágil, já que não esconde o seu temor quanto aos fantasmas que ameaçam o seu reinado. E as leis, antes feitas para coroar a justiça e premiar os inocentes, agora existem para acomodar os políticos, diminuir as tensões e atender aos nem sempre justos anseios que emanam do povo sofrido e revoltado.

- A teu ver – concorda Timóteo -, a justiça, agora, não passa de uma farsa. Os julgamentos continuam apenas para satisfazer a sociedade, mas não transmitem a verdade: os inocentes tornam-se culpados, os culpados são julgados inocentes e a impunidade, de certa forma, passa a ser justa, desde que as aparências a envolvam com seu manto, emprestando-lhe o brilho da verdade e a força de um ato legal.

- É isso ! - quase gritou, num ímpeto, Pilatos. É isso, sim ! É essa farsa que me atormenta ! Se sempre julguei de acordo com a minha consciência, como posso, agora, julgar de acordo com o jogo do poder e com os caprichos do povo ?

Com o dedo polegar sobre os lábios, como a pedir ao amigo que falasse mais baixo, Timóteo apenas ponderou:

- A nossa revolta é justa, só que não podemos deixa-la sair daqui dessas quatro paredes, para que não chegue ao conhecimento de César.

Abrindo a porta da sala, um centurião anunciou que Pilatos está sendo convocado para mais um julgamento.

Angustiado, seguindo em direção à sala das sentenças, apenas dizia consigo mesmo:

- Preciso voltar a ser justo.

Entrando na sala, viu-se diante de um homem magro, de altura mediana, moreno como a maioria dos judeus, com seus longos cabelos negros a cair-lhe sobre os ombros, barba e bigode à moda dos nazarenos, vestido com uma túnica branca, que o cobria do pescoço aos pés. Um tipo igual a tantos outros que já condenára à morte ou a outros castigos, atendendo à vontade do povo. Um, dentre muitos que já havia levado à cruz, sem nenhuma objeção. Só que, desta vez, ante sua revolta íntima, seria diferente. Haveria de reagir. Colocaria obstáculos. Daria uma chance à justiça.

- Que fez esse homem ?

- Esse homem - disse um dos presentes - foi encontrado por nós tumultuando os locais por onde tem passado, impedindo que sejam pagos tributos a César e apregoando ser um novo Messias... um novo rei !

Olhando nos olhos azuis do acusado, Pilatos perguntou:

- Tu és mesmo o rei do povo judeu ?

- Tu o dizes - respondeu.

Virando-se para os sumos-sacerdotes e para as pessoas que se acotovelavam no pátio, Pilatos declarou:

- Nada há neste homem que mereça condenação.

- Por toda a Judéia... da Galiléia até aqui - gritou uma voz no meio do povo – ele tem suble-vado a todos, pregando a desobediência a César !

- Ele é natural da Galiléia e, como galileu, o seu julgamento depende da autoridade de He rodes. É é para quem o envio. - concluiu, afastando-se.

Ao retornar ao convívio de Timóteo, novamente a sós, Pilatos reacende a sua revolta:

- Por acaso, lembrei-me que Herodes se encontra por aqui. Mas nada mais fiz, senão ganhar um pouco de tempo. Logo, Herodes o devolverá, que ele – tu bem sabes – não é de se meter em decisões que envolvam a vida ou a morte.

Colocou um pouco de vinho em duas taças e, entregando uma delas ao amigo, convidou-o:

- Que tal um brinde à justiça romana ?

Mal haviam sorvido a bebida, a porta, mais uma vez, é aberta, e Pilatos é convidado, de novo, a comparecer à sala das sentenças, onde lá estava, novamente, o prisioneiro, autorizado, por Herodes, a receber o julgamento.

Dirigindo-se aos sumos-sacerdotes, aos chefes e ao povo, deliberou:

- Vós me trouxestes este homem como se ele sublevasse o povo. Ao interroga-lo, nada achei que o fizesse merecer a condenação. Herodes tambem não, tanto que o mandou de volta. Por isso, vou infligir-lhe um castigo e solta-lo, como manda a lei.

A multidão, a uma só voz, explodiu em protestos.

- É um sublevador !

- Seu castigo é a morte !

- Deve morrer na cruz !

Num gesto extremo, Pilatos apontou para um homicida que ali também estava para ser julgado.

- Condenemos este homem à morte, mas libertemos o nazareno, que nada fez para merecer tamanha condenação !

Mas a multidão insistia, aos gritos, pela pena de morte, e o clamor que se ouvia crescia a cada instante:

- Crucificai-o ! Soltai o criminoso, mas levai-o à cruz !

Vencido, mais uma vez, pela vontade da turba, Pilatos ordenou que o assassino fosse solto e o inocente nazareno condenado à morte.

- Lavo minhas mãos.

De volta à sua sala de repouso, tendo, ao seu lado, a figura do amigo Timóteo, ficou, por alguns minutos, no mais profundo silêncio, até que, com a face marcada pela angústia, disse:

- Tu vistes e ouvistes tudo o que se deu. Pela primeira vez, tentei impor a lei... a justiça. Ao invés de simplesmente balançar a cabeça para confirmar a sentença, busquei iluminar o coração dos homens. Só que a escuridão que o envolve tornou-se impenetrável à luz. Preferiram soltar o bandido e condenar o inocente. Que mais posso fazer, senão lavar as mãos e desejar que, um dia, tudo isso se modifique ?

- Não acredito - acrescentou, sem muito entusiasmo, Timóteo - que algo se modifique no futuro. Por mais que se aperfeiçôe, a justiça jamais será perfeita. Sempre haverá, no mundo, injustiça e impunidade. Em qualquer tempo, inocentes estarão pagando por crimes que não cometeram, e crimi-nosos estarão à solta, impunes e intocáveis.

- Parece que a humanidade já escolheu o seu caminho e começa a construir um mundo, onde apenas a vontade dos mais fortes prevalece - concluiu Pilatos, quase num lamento.

- Roma é o exemplo. César é a imagem dessa força.

Sem dizer mais nada, os dois amigos apenas se levantaram e, ante os gritos da multidão lá fora, dirigiram-se à sacada, de onde puderam observar a turba, frenética, conduzindo o prisioneiro ao calvário.

Já era quase meio-dia, mas a noite parecia estar chegando, tantas eram as núvens escuras que escondiam o sol.

À noite, na hora da ceia, Pilatos e Timóteo nem mais se lembravam daqueles momentos angustiantes vividos no período matinal.

- Seria bom que tu pudesses esquecer tudo quanto falamos pela manhã. Temos que viver as nossas vidas, de acordo com a vontade de César. Não podemos nos rebelar - concluiu Pilatos.

- Que seja assim - concordou Timóteo.

Conversando pouco, ao se servirem na mesa farta, os dois se entreolhavam, de vez em quando, como se quisessem dizer algo, mas pareciam se conter e continuavam calados, embora não escondessem uma certa aflição pelo silêncio que estava, não mais na sala, mas dentro de si mesmos, incomodando-os íntimamente.

Finalmente, Pilatos, sem suportar mais aquela ausência de palavras, quis saber:

- Aquele homem... aquele que morreu na cruz... como se chamava mesmo ?

- Não lembro - respondeu Timóteo, forçando a memória.

- Nem eu - confessou.

E concluiu:

- Mas isso não tem a menor importância.

- Não tem mesmo - concordou o amigo.

No dia seguinte, Pilatos estava novamente na sala das sentenças, onde dezenas de presos aguarda-vam julgamento.

E ele voltou a ser o mesmo, julgando de acordo com o povo.

Como sempre fizera.

Sem mudanças.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

CRÔNICA DA SAUDADE


TRISTEZAS DE JUNHO

De vez em quando, na abertura de um novo mês, costumo folhear o calendário da saudade – aquele que a gente tem guardado em notas e na memória – para saber quais foram as nossas perdas mais sentidas ao longo daquele período que se inicia, principalmente num mês como esse que está chegando, chuvoso e friorento, que costuma botar a gente pra ficar mais tempo em casa, encolhido ali, num cantinho, divagando com as lembranças de um tempo que já se foi. Neste início de junho não temos como deixar de lembrar aqueles que, ao partirem, tornaram-se mais presentes nas vidas de todos nós, principalmente através de musicas que marcaram as nossas existências, como é o caso de João Nogueira e Moreira da Silva, dois símbolos vivos da história do nosso mais tradicional e popular ritmo, que é o samba, e que até parece que combinaram em nos deixar num mesmo dia.

João Nogueira – cujo nome completo era João Batista Nogueira Júnior – foi um carioca da gema, nascido ali, no Méier, na zona norte do Rio, no dia 12 de novembro de 1941. Filho de um músico profissional, João nunca deixou de estar em contato com o samba e o choro, já que Pixinguinha, Donga e João da Baiana sempre freqüentaram a sua casa. Aprendeu a tocar violão com o próprio pai, que morreu quando ele tinha apenas 10 anos, a partir de quando a família passou por uma fase difícil, obrigando-o a trabalhar. O famoso “Clube do Samba”, que ele criou em sua própria casa, e que funcionou, depois, no Flamengo e na Barra da Tijuca, onde permanece até hoje. João Nogueira, em 1972, lançou, pela Odeon, seu primeiro LP, onde já se destacavam vários sucessos de sua autoria. Ao falecer, na madrugada do dia 6 de junho de 2000, vítima de um enfarte, quando se recuperava de um AVC, lá mesmo, no Rio que tanto amou, João Nogueira nos deixou uma herança musical repleta de grandes sucessos, todos, é claro, no ritmo do samba clássico, como Espelho, Um Ser de Luz, Súplica, O Poder da Criação e tantos outros que ficaram na história.

Antonio Moreira da Silva – que se tornou nacionalmente famoso pelo sobrenome completo – foi, ao contrário de João Nogueira, o sambista do samba do morro, todo cheio de malemolências, que conquista o brasileiro pela batida cadenciada e pelos versos que retratam a alma popular. Moreira da Silva, o velho Moringueira, nascido no dia primeiro de abril de 1902 – no alvorecer do século XX – era filho de um policial militar tocador de trombone e viveu toda a sua infância no Morro do Salgueiro. Com sua imagem de malandro e boêmio, Moreira da Silva, ao partir para a eternidade no mesmo dia 6 de junho, também do ano 2000, premiou a música popular brasileira com sambas-de-breque e chôros geniais de sua autoria e por ele interpretados, onde se destacam Casinha Amarela, Acertei no Milhar, Dormi no Molhado, Na Subida do Morro, 1.296 Mulheres, Olha o Padilha, O Rei do Gatilho, Patrulha da Cidade e muitos outros, todos presentes em mais de 20 LPs gravados, além de mais de 100 discos em rpm e quatro CDs. O eterno malandro foi uma forte marca musical em todo o século XX.

Ambos se foram numa mesma data e deixaram uma única e imensa saudade... dessas que a gente não cansa de chorar.

terça-feira, 25 de maio de 2010

CRÕNICA DA SAUDADE


UMA RÁDIO DE SEMPRE

A segunda metade do século XX foi determinante na história do rádio, tornando este veículo de comunicação, dos anos 40 aos anos 60, na mais poderosa força política e social do país, dominando, de maneira categórica e decisiva, durante muito tempo, a opinião pública brasileira.

A Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, foi, por muito tempo – especialmente nos anos 50 – um verdadeiro ícone do meio de comunicação perfeito, chegando com rapidez e interatividade, a milhões de ouvintes espalhados por todo o imenso território brasileiro, criando ídolos e modismos, fomentando idéias e alicerçando dogmas, como ocorre, hoje, com as redes de televisão.

Assim como aprendemos a ouvir as vozes famosas de Heron Domingues (com seu Repórter Esso), de César Ladeira e suas crônicas românticas, de Júlio Lousada (e sua Oração da Ave Maria), de César de Alencar (com seus programas dominicais), de Ary Barroso (com seus calouros na “Hora do Pato”), de Paulo Gracindo e de Carlos Frias, aprendemos, também, a aplaudir os artistas que a emissora costumava divulgar, como Francisco Alves, o Rei da Voz; Orlando Silva, o cantor das multidões (com seu programa semanal, ao meio-dia), Emilinha Borba e Marlene (com seus atuantes fãs-clubes) e tantos outros nomes famosos que a Nacional incluiu no dia-a-dia do nosso povo, de norte a sul do país, através de uma audiência jamais superada.

Como o rádio não conseguiu se organizar em redes, as grandes emissoras, isoladas, foram, aos poucos, perdendo o prestígio que, ao longo dos anos, haviam conquistado em todo o país. Ano após ano, as emissoras do Rio e São Paulo, como a Nacional – principalmente -, a Tupi, a Tamoio, a Record, a Jornal do Brasil e tantos outras foram desaparecendo de nossas vidas, pois já não eram sintonizadas além dos seus estados.

Mas o nome da Rádio Nacional... dos seus artistas... dos seus locutores... dos seus astros e estrelas famosos... dos seus programas que fizeram época... tudo isso ficou para sempre na lembrança dos que viveram o apogeu da maior emissora de rádio do Brasil.

Tudo isso me vem à lembrança, quando leio, num jornal do Rio, que os funcionários da Rádio Nacional lamentam a decisão do Governo de desativar a emissora, agora de forma definitiva, e encerrar suas atividades.

Em termos de memória, será mais uma tragédia nacional.

O Brasil que votou em Lula não merece mais esta.

terça-feira, 18 de maio de 2010

CRÔNICA DA SAUDADE


SAUDADES DO CABOCLINHO

A nossa vida é toda feita de recordações. Ao longo da existência, a gente vai guardando, na memória, no dia-a-dia de todos nós, as lembranças mais queridas – justamente aquelas que envolvem as pessoas que mais admiramos e que, por isso mesmo, resolvemos torna-las inesquecíveis. É como se a gente consultasse, à cada semana, para escrever esta crônica, um calendário especial... diferente desses que marcam apenas os meses e os dias... um calendário da saudade, onde anotamos, com as nossas mais puras emoções, os nomes daquelas pessoas que, de um modo ou de outro, marcaram as nossas existências.

Nos meus tempos de serenata lá em Campina Grande, no alvorecer da juventude, quando o Clube do Bacurau ainda funcionava todos os fins-de-semana, que tive a honra e o prazer de levar o Sílvio Caldas – o maior seresteiro de todos os tempos – para cantar, à luz da lua e ao som do violão de Antonio Emiliano, Carinhoso, de Pixinguinha, ao término do qual dezenas de pessoas despertaram na madrugada para aplaudi-lo.

Foi num dia 23 de maio do ano de 1908 que nasceu, numa casa modesta do bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, o menino Sílvio Narciso de Figueiredo Caldas, filho do afinador de pianos Antonio e de dona Alcina Figueiredo Caldas. Antes de ser cantor, foi mecânico da Companhia Telefônica e motorista e, mesmo quando já estava contratado como artista da Rádio Mayrink Veiga, ainda continuou por muito tempo consertando caminhões. Em 1930, gravou, pela primeira vez, na RCA Victor, com o samba Amoroso, de sua autoria. Logo em seguida, no mesmo ano, gravou a canção Recordar é Viver e o samba-canção Amor de Poeta, ambas de autoria de Sinhô. Foi neste ano ainda que cantou Faceira, de Ary Barroso, que também começava sua carreira, tornando-se seu primeiro grande sucesso. Em 30, Sílvio lançou 19 discos pela Victor, contendo, ao todo, 32 músicas.

No ano seguinte, lançou várias marchinhas para o carnaval e um dos seus grandes sucessos nacionais, que foi o samba-canção Maria, de Ary Barroso e Luiz Peixoto, gravando, em 1933, um dos clássicos da música popular brasileira: a valsa Mimi, do seu amigo Uriel Lourival. E vieram, em seguida, sucessos inesquecíveis, como Serenata, Boneca, Telefone do Amor, Por Causa Dessa Cabocla, Favela dos Meus Amores, Madrugada, Saudades Dela, As Pastorinhas, Sorris da Minha Dor, Chão de Estrelas, Deusa da Minha Rua, A Cor do Pecado, Maria, No Rancho Fundo, Morena Boca de Ouro, Três Lágrimas, Aquarela do Brasil, Na Baixa do Sapateiro, Suburbana, Minha Casa, Boa Noite Amor, Torturante Ironia, Favela, Serra da Boa Esperança e centenas de outras músicas que ficaram em nossas vidas. Em 1978, gravou seu último show ao vivo, no Canecão, ao lado de Pedro Vargas. Em 1989, participou do último espetáculo montado em sua homenagem, no Teatro João Caetano. No dia 3 de fevereiro de 1998, aos 90 anos, Silvio Caldas, o Caboclinho Querido, faleceu no seu sítio em Atibaia, em São Paulo, onde viveu os últimos 40 anos de sua vida.

Sílvio disse adeus ao nosso mundo e foi fazer, com certeza, lá no

céu, à luz das estrelas - e bem pertinho delas - as mais belas serenatas de todos os tempos.

sábado, 8 de maio de 2010

CRÔNICA DA SAUDADE


AS MÃES DE TODOS OS DIAS

Todo bom filho, que reconhece a força, a importância e a grandeza do amor materno na consolidação de todas as conquistas da sua vida, sabe muito bem que cada dia de sua existência é um período de tempo a mais que deve ser dedicado à demonstrações de afeto e de carinho que possam comprovar todo o reconhecimento que deve ser dado àquela mulher que garantiu a sua presença no mundo e que tudo fez para torna-lo feliz. Às mães devem pertencer, portanto, todos os dias das nossas vidas.

E o Dia das Mães do calendário – este que é oficialmente dedicado à todas as mães do mundo e que é comemorado no segundo domingo do mês de maio, todos os anos – como é que surgiu ?

Segundo se sabe, foi a americana Ana Jarvis, nascida no estado da Virgínia Ocidental, filha de pastores que, ao perder sua mãe, em 1905, ficou profundamente abatida e caiu em depressão. Preocupadas com aquele sofrimento, algumas amigas tiveram a idéia de perpetuar a memória de sua mãe com uma festa. Ana aceitou a sugestão, desde que a festa fosse estendida à todas as mães, vivas ou mortas, e que aquela data fosse sempre lembrada, todos os anos, fortalecendo os laços familiares. A idéia de Ana, três anos depois, repercutiu, finalmente, junto ao governador William Glasscock, da Virgínia, que incorporou o Dia das Mães ao calendário daquele estado. Em 1914, o presidente Wilson, dos Estados Unidos, unificou a celebração em todos os estados americanos, estabelecendo que o Dia das Mães seria comemorado no segundo domingo do mês de maio, por sugestão da própria Anna Jarvis.

Em bem pouco tempo, mais de quarenta países adotaram a mesma data para suas homenagens às mulheres-mães, inclusive o Brasil, que festejou o seu primeiro Dia das Mães em 12 de maio de 1918, promovido pela Associação Cristã dos Moços de Porto Alegre, mas foi o presidente Getúlio Vargas, em 1932, que oficializou, para todo o país, o segundo domingo de maio, o que vem ocorrendo até os dias atuais.

Anna Jarvis passou toda a sua vida lutando para que as pessoas reconhecessem a força e a importância das mães em nossas vidas. Ela dizia às pessoas que todos deviam agradecer diariamente o amor que sempre receberam das suas mães. Anna morreu em 1948, aos 84 anos, tendo recebido cartões comemorativos de todo o mundo por anos seguidos, mas nunca chegou a ser mãe.

Coelho Neto, que sempre foi um grande escritor, virou poeta e fez um soneto que termina assim e que sintetiza toda a grandeza de ser mãe:Todo bem que a mãe goza ébem do filho,/espelho em que se mira afortunada./luz que lhe pôe nos olhos novo brilho !/Ser mãe é andar chorando num sorriso !/Ser mãe é ter um mundo e não ter nada !/Ser mãe é padecer num paraíso !

Amor de mãe, o filho sabe, é para sempre.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

UMA VOZ E UMA SAUDADE

Há seis anos, no dia 18 de abril de 1998, o Brasil perdia um pouco da sua musicalidade e do seu romantismo com o falecimento de um dos seus mais consagrados cantores de todos os tempos, ídolo de milhões de brasileiros e dono de uma voz inconfundível: Nelson Gonçalves.

Filho de pais portugueses, que passaram a residir em São Paulo, no bairro do Braz, logo após o seu nascimento, Antonio Gonçalves Sobral (era este o verdadeiro nome de Nelson Gonçalves) nasceu em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, no dia 21 de julho de 1919.

Aos 16 anos, tornou-se lutador de boxe da categoria peso-médio, até que, dois anos depois, resolveu tentar a sorte como cantor. Num programa de calouros da Rádio Tupi de São Paulo fez a primeira tentativa e foi reprovado. Na segunda, foi contratado. Tentou fixar-se no Rio de Janeiro, mas foi em São Paulo onde recebeu convite para um teste de gravação e foi recomendado a RCA Victor pelos compositores Osvaldo França e Rosano Monello. Foi com a ajuda de Benedito Lacerda que gravou, em 1941, seu primeiro disco, onde o samba Sinto-me Bem, de Ataulfo Alves, fez um relativo sucesso, garantindo ao cantor dois contratos: um, com a gravadora e, outro, com a Rádio Mayrink Veiga, para onde foi levado por Carlos Galhardo. Nesse mesmo ano, ao gravar Renúncia, de Roberto Martins e Mário Rossi, deu início à uma série de sucessos que marcariam a década de 40, como a célebre canção Maria Bethânia, de Capiba, os tangos Carlos Gardel e Hoje Quem Paga Sou eu, de Herivelto Martins e David Nasser.

Na década de 50, gravou sucessos marcantes de Adelino Moreira, como A Última Seresta e A Volta do Boêmio, além de parcerias com o compositor em Mariposa, Timidez e no bolero Fica Comigo Esta Noite. No final da década, Nelson tornou-se viciado, passando a travar uma dramática batalha contra as drogas, problema que acabaria por ocasionar uma interrupção em sua carreira em 1962, quando foi preso por acusação de tráfico, tendo sido absolvido em julgamento.

Nessa época, formou-se um mutirão de amigos que se uniram em torno da sobrevivência do cantor... do seu retorno às atividades artísticas... de sua volta aos shows, às gravações e ao sucesso. Por telefone, ele pedia socorro. E foram muitas as vezes em que inventamos temporadas na Rádio Borborema de Campina Grande, onde ele vinha e se apresentava cercado de cuidados, acompanhado da esposa, que o mantinha afastado das drogas. Em 1965, ele já era o mesmo Nelson de sempre. Gago, inteiramente gago ao falar; perfeito, totalmente perfeito, ao cantar.

Em vida, nenhum cantor popular foi maior do que Nelson: gravou 120 LPs, 20 CDs, vendeu 50 milhões de discos, ganhou 15 discos de platina e 41 de ouro. E ficou para sempre no coração do povo brasileiro.